Ocupação russa da Crimeia: verdade contra mitos
20 fevereiro 2019 15:13

Já se passaram cinco anos desde ocupação russa na Crimeia. Em fevereiro de 2014, Moscou pela primeira vez na história de pós-guerra na Europa tomou parte do território de outro estado soberano, desestabilizando assim o sistema de segurança europeu e mundial.

Naquele tempo, o mundo, praticamente unânimo, condenou a anexação da Crimeia pela Rússia e desde então não mudou sua posição, embora o Kremlin tivesse certeza de que a ocupação da Crimeia em breve seria perdoada, assim como a agressão contra Geórgia em 2008.

Pessoas conscientes - políticos, analistas e juristas concordam que Moscou, de maneira grosseira, violou o Direito Internacional. Ninguém duvida, que do ponto de vista legal, a Crimeia pertence à Ucrânia. E isso, claro, é de extrema importância.

Mas, ao mesmo tempo, muitos no mundo acreditam que de “um ponto de vista humano” a ação de Putin pode ser entendida, porque, como eles ouviram em algum lugar, "a Crimeia sempre foi russa".

É difícil encontrar um mito mais absurdo e menos fundamentado, mas, por mais estranho que pareça, ele criou raízes profundas em todo o mundo e conseguiu penetrar na consciência das pessoas no âmbito internacional.

A razão, obviamente, é que a propaganda russa começou a divulgar essa desinformação imediatamente após o colapso da União Soviética, quando ainda não dava para sentir o cheiro da guerra. Mas quando a mesma chegou, a opinião internacional "não oficial" já havia sido preparada.

Neste artigo, gostaria de apresentar fatos históricos que refutam esse mito e cuja veracidade se pode verificar em qualquer fonte confiável.

Então os fatos são os seguintes:  

Os tártaros da Crimeia, que tinham seu próprio estado do Canato da Crimeia, é um povo autóctone da Crimeia. Aliás, era um estado muçulmano forte e altamente culto. Quanto aos russos, eles simplesmente não habitavam na península, exceto os prisioneiros de guerra.

No início do século XVIII, graças às reformas do Pedro I, Moscóvia tornou-se o Império Russo, ganhando força e conquistando países europeus vizinhos.

A Estônia e a Letônia foram conquistadas pela Rússia no ano de 1721, a Lituânia e parte da Polônia, incluindo Varsóvia em 1795 e a Finlândia no ano de 1809. Hoje, todos eles são estados nacionais soberanos, membros da Organização das Nações Unidas, da União Europeia e da OTAN (exceto a Finlândia). E é improvável que há alguém que ousasse dizer que eles "sempre foram russos".

O Canato da Crimeia entrou na lista de estados conquistados por Moscou em 1783, que do ponto de vista histórico é relativamente pouco tempo. Assim, falar sobre algum tipo de pertença original da Crimeia à Rússia é puro absurdo. É simplesmente um dos países, um dos povos, que o Império Russo naqueles dias escravizou pela força das armas.

A única diferença entre a Crimeia e os outros estados mencionados acima é que após o colapso do Império Russo em 1917, os tártaros não conseguiram defender sua própria independência. A Crimeia, como a Ucrânia, foi capturada pelos bolcheviques e permaneceu na estrutura do mesmo império russo, mas já sob o nome da União Soviética. 

No entanto, na União Soviética, a Crimeia tinha ainda menos "sorte" do que a Ucrânia. A Ucrânia tornou-se uma "república da união" com características formais de soberania do Estado, já em 1921 Moscou de bolcheviques deu à Crimeia apenas o status de autonomia na Rússia, e não na Republica Ucraniana da União.

Tal decisão do Kremlin claramente contradiz a realidade objetiva, porque a península da Crimeia geograficamente é uma parte da Ucrânia, e a Rússia não tem conexão terrestre com a mesma. A pertinência administrativa à Rússia com o vínculo territorial à Ucrânia complicou consideravelmente o desenvolvimento econômico da península, que foi praticamente realizado apenas pela Ucrânia.

A situação em si foi corrigida pela própria Moscou, que foi finalmente forçada a reconhecer as realidades geográficas e geoeconômicas. Em 1954, o Kremlin iniciou a transferência da Crimeia da Rússia para a República Ucraniana (o Kremlin não podia imaginar que a Ucrânia seria uma vez independente, então a Crimeia, como toda a Ucrânia, ainda ficava de fato embaixo de domínio da Rússia).

Gostaria de enfatizar à parte, que a transferência da Crimeia foi realizada em total conformidade com as leis e procedimentos da URSS. O mini-mito russo de que a Crimeia foi dada a Ucrânia ilegalmente pelo néscio Khrushchov é uma ficção trivial. Em 1954, Khrushchov ainda não tinha poder suficiente para qualquer ação oportunista desse tipo.

Bem, chegamos a entendimento do que realmente significa o feitiço "Crimeia sempre foi russa". Acontece que não se trata nem mesmo de um século e meio no cativeiro do Império Russo (1783 - 1917), porque tais reivindicações se aplicariam ao resto das ex-colônias e agora estados independentes. O decisivo aqui seria a permanência da Crimeia na República Soviética Russa nos anos de 1921 a 1954, ou seja, apenas 33 anos de história recente!

Parece que desde o colapso da União Soviética, nos líderes russos enfurecia uma ideia de que, se não fosse 1954, a Crimeia teria permanecido na Rússia. Assim, eles não têm vergonha que se não fosse 1921, a península seria uma parte da Ucrânia, e se não fosse ano 1783,  seria um estado independente com 0% de população russa.

 Então, em 2014, a arrogância imperial prevaleceu - o Kremlin decidiu ocupar a Crimeia de jeito que abertamente violava o Direito Internacional, a lógica histórica e justiça.

Como uma anedota vou citar outro mini-mito russo sobre a Crimeia, que no ano de 2014 foi lançado pessoalmente pelo presidente russo. Ele diz que "para a Rússia, a Crimeia tem um valor sagrado e que há uma fonte espiritual para criação do estado e nação russos", isso porque na Crimeia o Príncipe Volodymyr aceitou a fé cristã, e em seguida batizou toda a Rússia.

O Príncipe Volodymyr realmente foi batizado no ano 988 na Crimeia (pelo menos assim diz a crônica) e, no mesmo ano batizou o seu Estado. Mas ele era o Príncipe de Kyiv, e não de Moscou, e ele batizou Rus de Kyiv, e não a Rússia. Quanto à Moscou, da Rússia e do próprio grupo étnico russo, entendemos que na época todos aqueles ainda não existiam. A floresta no local da Moscou atual foi dominada por tribos fino-húngaros, que só depois de alguns séculos, foram assimilados aos eslavos e se tornaram o núcleo moderno da nação russa.

Então, um absurdo de novo! No entanto, mesmo este tipo de falsificação histórica desajeitada agora se coloca no espaço internacional de informação. O cálculo, obviamente, como sempre, é que ninguém vai pesquisar corretamente o assunto em fontes confiáveis.

No entanto, o mito sobre a "Crimeia russa" foi construído, infelizmente, não só na propaganda de Fake news e distorções absurdas da história. Em maio de 1944, Moscou realizou uma operação criminosa de grande escala, cujo objetivo foi  limpar completamente a Crimeia de povos indígenas e substituí-los por russos étnicos.

O regime de Stalin culpou pelo colaboracionismo com nazistas que ocuparam a Crimeia nos anos 1941 – 1944, todo o povo de Tartaros de Crimeia, e todas as 191 mil pessoas deste povo, incluindo bebês, no prazo de dois dias foram levadas a regiões distantes asiáticas da URSS. Sobre o fato de que o Kremlin precisava fazer uma limpeza étnica, e a acusação de traição foi apenas uma escusa, mostra que na verdade, foram expulsas também famílias de 9 mil tártaros militares do exército vermelho, que naquele momento combatiam na frente contra os nazistas. Além disso, depois dos tártaros foram expulsos outros grupos étnicos, como gregos, búlgaros e armênios que viviam na península durante séculos e que não foram acusados de traição. Na península ficaram apenas os eslavos, ou seja, russos e ucranianos locais.

Depois disso, começou uma transferência em massa para a Crimeia de pessoas provenientes das províncias russas. Eles ocuparam 80 mil casas vazias, que restaram dos representantes dos povos indígenas expulos. Ou seja, os descendentes desses colonos russos hoje constituem a parte principal da população da Crimeia, que apoia a anexação da mesma e a vontade dos cuais o Kremlin gosta tanto de citar.

Até último momento, Moscou não deixava os tártaros da Crimeia  regressarem a sua Pátria. A sua repatriação em massa começou já na Ucrânia independente. A Ucrânia assumiu todos os custos e preocupações sobre o alojamento de todo esse povo. Até 2013, voltaram para casa cerca de 266 mil tártaros, que constituiram 13,7% da população da península.

A ocupação russa de 2014 tornou-se para os tártaros da Crimeia um verdadeiro desastre nacional. Eles se libertaram do GULAG, mas o GULAG chegou de novo à sua terra natal. Portanto, quase todo o povo Tártaro da Crimeia está em oposição aos invasores russos e permanece fiel a Ucrânia. E por isso, os tártaros da Crimeia tornaram-se hoje a principal vítima de perseguição e repressão por parte dos invasores. Até 25 mil tártaros foram forçados a deixar a Crimeia novamente e emigrar para Ucrânia continental. Kremlin proibiu o Majlis, parlamento nacional de tártaros da Crimeia, a mídia, a educação, a cultura e a religião sofrem pressão, dezenas de patriotas foram colocados na prisão. Assim, em dezembro de 2018, ao entrar na Crimeia, foi detido pelos ocupantes Éden Bekirov, figura pública do Povo Tártaro, que queria visitar a sua mãe de 78 anos. Bekirov, um deficiente, tem diabetes, perna amputada e possui 4 stent no coração após infarto do ano passado. A permanência na prisão sem medicamentos prescritos e cuidados médicos para ele é de fato uma sentença de morte. No entanto, a "justiça" russa, mantém ele sob prisão. Ele está acusado de supostamente ter alguém para passar o saco com 15 quilos de explosivos, embora a saúde não lhe permite levantar mais de dois quilos. Um absurdo flagrante da acusação, e ousadia em  arbitrariedade jurídica atestam que a máquina opressiva russa tenta intimidar e desmoralizar os tártaros da Crimeia.

Observa-se que, vítimas de repressão não são apenas os tártaros da Crimeia. O mundo inteiro já sabe o nome do realizador de cinema ilegalmente preso, russo étnico e verdadeiro patriota da Ucrânia, Oleg Sentsov, que protestou abertamente contra a anexação da Crimeia. Num símbolo de coragem tornou-se para nós também um ucraniano étnico Vladimir Balukh, lançado por trás das grades por levantar a bandeira ucraniana no seu lar na Crimeia ocupada. Como podemos ver, contra a captura de sua terra por invasores russos protestam e lutam honestas e corajosas pessoas da Crimeia, independentemente da nacionalidade. As violações pelo Moscou de direitos humanos na península foram condenados mais de uma vez pela Organização das Nações Unidas e outras organizações internacionais. Mas estou convencido de que a comunidade internacional deve triplicar os esforços para a libertação imediata dos presos políticos.

Como vemos, o atual crime contra o povo de tártaros da Crimeia é uma continuação direta do crime de 1944, que entrou na história, sob o nome de "deportação". A esta definição se usam todos os pesquisadores, políticos e jornalistas. No entanto, e este, por si só o termo assustador, na verdade, é um eufemismo político, que produz uma imagem errada e mitigada da realidade. Os fatos mostram que apenas nos primeiros 4 anos da expulsão por causa das condições extremamente duras de vida, morreram 46,2% dos tártaros da Crimeia. E isso não é só a deportação, é um verdadeiro genocídio. Graças a substituição de conceitos, genocídio de tártaros da Crimeia, como no seu tempo o Holodomor ucraniano, desapareceu da memória histórica da humanidade, e, temos que reconhecer, é mais uma vitória da propaganda soviética.

Então, a Moscou precisa do mito de que "a Crimeia sempre foi russa" para esconder os resultados do genocídio dos tártaros da Crimeia e justificar a colonização russa. Isso é um dos principais objetivos da anexação atual da Crimeia.

Portanto, a desocupação da Crimeia e sua devolução para soberania da Ucrânia, além de aspecto político e jurídico, tem também um poderoso efeito moral. A comunidade internacional não tem direito de diser que pelo menos um genocídio "valeu a pena", que aqueles que o cometeram atingiram seu objetivo, mesmo depois de muitas décadas.

 

Embaixador Pavló Klimkin

Ministro das Relações Exteriores da Ucrânia

 

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