Caros Cidadãos da Ucrânia!
Há momentos na vida em que é preciso falar com franqueza, com calma, sem pressa, sem se distrair com o celular. Não apenas para ouvir, mas para escutar. Não com meia atenção, mas com todo o coração. O momento atual requer sintonia de todos nós para enfrentarmos as questões mais importantes que têm acometido a Ucrânia.
Todos nós, independentemente de sexo, idade e status. Quer vivamos no interior ou na cidade, quer nas margens do Mar Negro, rio Dnipró,Tissa ou Seversky Donets. Quer falemos ucraniano, russo, tártaro da Crimeia, húngaro ou língua de sinais. Não importam as escolhas na eleição. Não importa se seguimos a Quaresma ou o Ramadã, se usamos um crucifixo, a Estrela de Davi, o hijab ou se não acreditamos em nenhum deus.
Todos nós precisamos entender o que está acontecendo e o que é necessário fazer. O que está acontecendo hoje? E o que irá acontecer amanhã?
Vamos começar com o presente. O que está acontecendo hoje? Um grande número de tropas russas está concentrado perto das fronteiras ucranianas. Oficialmente, a Rússia chama isso de treinamento. Extraoficialmente, o mundo inteiro constata que se trata de chantagem. Esse fato nos preocupa? Sim. A Ucrânia e seus parceiros internacionais exigem que as tropas sejam retiradas de nossas fronteiras? Sim. Afinal, a Federação Russa repete constantemente que busca a paz, mas, ao mesmo tempo, gera todas as condições que antecedem uma escalada das tensões.
É lógico? Não. Mas é inesperado? Não. Significa que a escalada é inevitável? Também não.
A Ucrânia quer uma guerra? Não. Mas o país está preparado para guerra eventual? Sim. A Ucrânia deixará de lutar pela paz por meio da diplomacia? Nunca. A Ucrânia vai se defender em qualquer caso? Sempre.
Nosso princípio é simples: a Ucrânia não dá início a guerra, mas permanecerá de pé até seu final.
O que vocês precisam fazer?Primeiramente, percebam que a ameaça não decorre apenas das tropas estrangeiras, mas de nossas emoções, como reagimos às informações e de onde as obtemos.
Vale a pena pensar três vezes se podemos confiar sem ressalvas em especialistas da Internet, fontes de mídia "confiáveis", insights de canais de Telegram anônimos, rumores no ônibus, no mercado e na portaria do prédio? Histórias de conhecidos, cujos conhecidos têm conhecidos no Ministério da Defesa e compartilharam secretamente informações secretas? E mais importante ainda: devemos mesmo confiar nas declarações dos políticos, que se importam não com os interesses dos cidadãos, mas, sim, com seus votos?
São os mesmos políticos que se mostram comandantes heróicos no Facebook e no Twitter. Que gritam que devemos começar uma guerra imediatamente, mas que omitem que estão falando de nossos filhos e não dos seus. E é ainda pior: para estes políticos, a vitória estará na derrota do país, o que querem é apenas poder dizer que haviam avisado antes.
Precisamos estar vigilantes hoje? Sim. Precisamos ter medo? Não. Porque a Ucrânia-2021 é muito diferente da Ucrânia-2014.
Não temos medo, porque a Ucrânia-21 não tem ilusões. Sabemos quem é verdadeiro amigo, verdadeiro irmão. Quem estará pronto para dar seu ombro e quem poderá te dar um golpe pelas costas. É por isso que a Ucrânia-21 entende todos os cenários possíveis e sabe o que fará em resposta a qualquer novo andamento da situação. Não temos medo, porque temos um exército incrível e defensores incríveis. Na semana passada, passei dois dias com eles na linha de frente. O que eles falam sobre a situação? Estão acostumados a não falar e apenas cumprir suas missões.
Eles possuem equipamentos e armas de qualidade, valiosa experiência, coragem, alto espírito de luta, e disposição para repelir qualquer invasor, explicando da maneira mais fácil possível, que transitar a pé ou em meio de transporte por nossas terras, e sobrevoar a elas é proibido, é impossível para o caso de invasores.
Há algo que nossos combatentes não tenham de maneira alguma? Sim. Eles não têm medo e descrença em sua própria força.
Não temos medo, porque temos uma sociedade civil exemplar, que está preparada para mobilização voluntária em massa, que vai dar tudo de si, buscar e trazer o que for necessário. Seja dia, seja noite, faça calor ou faça frio.
Não temos medo, porque somos uma admirável nação de gente de grande valor. Militares, médicos, cientistas, engenheiros, construtores, especialistas em TI, arquitetos, engenheiros civis, fazendeiros, artistas, músicos, poetas. E somos, ainda, uma nação de criadores, não somos destruidores. Não destruímos outras terras e povos. O que não significa que nos permitiremos ser destruídos. Estamos todos prontos para deixar de lado nossos laptops, ponteiros, microscópios, escovas, espátulas, rastelos e pás para proteger nossa terra. Porque não temos uma outra. Porque não vamos fugir para lugar algum. Porque não estamos acostumados a desistir.
Não temos medo, pois contamos com o forte apoio de parceiros internacionais. Conversei com os líderes dos Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, Turquia, o Presidente do Conselho Europeu e o Secretário-Geral da OTAN. Eles, como todos os outros parceiros, estão do nosso lado. Eles percebem perfeitamente os verdadeiros motivos da Rússia. Estão prontos para nos apoiar financeiramente. Estão prontos para impor sanções e adotar resoluções cada vez mais duras. É o certo, é o necessário, e a Ucrânia agradece sinceramente por todos os esforços internacionais nesse sentido. Ao mesmo tempo, nossos cidadãos precisam entender melhor o que o mundo pode fazer. Como exatamente e com quem vocês nos ajudarão se um Estado ignorar novamente as fronteiras estabelecidas no centro da Europa? Vocês compreendem que a Ucrânia e, com ela, todos aqueles que acreditam na força e no vigor do direito internacional podem precisar eventualmente de muito, muito mais do que uma preocupação de caráter diplomático? Maior determinação pode ser necessária a todos nós. O mundo está pronto para resolver problemas complexos? Será que as questões inconvenientes continuarão a ser evitadas, pelo Conselho de Segurança da ONU, pela Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e pelo Nord Stream-2, no caso de uma agressão em grande escala por parte da Federação Russa?
Os nossos cidadãos precisam de sinais claros de que, em seu oitavo ano de guerra, o país que, à custo das vidas de seus cidadãos, e que funciona como escudo para a Europa, receberá apoio não apenas como mero parceiro, das arquibancadas, mas na condição de jogadores da mesma equipe, diretamente no campo, ombro a ombro.
O Presidente passa a falar russo:
E eu gostaria de me dirigir separadamente ao nosso vizinho do norte. Uma vez o presidente da Federação Russa disse: quando uma luta é inevitável, você precisa bater primeiro. Na minha opinião, hoje, todo líder deve entender que a luta é evitável, sim, quando não estamos lidando com bandidos num beco, mas tratamos de uma guerra real e de milhões de vidas humanas. Ao contrário de uma briga, em uma guerra, todos os lados perdem. Quando você está atacando, você não pode proteger alguém. É impossível libertar alguém capturando-o. É impossível trazer paz em um tanque de guerra. Especialmente para pessoas que sequer entendem de quem estão sendo protegidas e libertadas, e por que para isso, podem ser submetidos a tiros e bombardeios. Incluem-se nessa conta nossos idosos que sobreviveram, que libertaram esta terra dos nazistas e estão sem entender por que sua vida pacífica, 75 anos depois, voltou a ser ameaçada pela guerra.
A Ucrânia e a Rússia, apesar de seu passado comum, olham para o futuro de forma diferente. Nós somos nós. Vocês são vocês. Mas isso não é necessariamente um problema, é uma oportunidade. Será uma oportunidade ao menos antes que seja tarde demais para interromper a matemática mortal das futuras perdas militares. Ontem e hoje, nas reuniões do Quarteto da Normandia e do subgrupo de segurança do Grupo de Contato Trilateral, discutiu-se a restauração do cessar-fogo total, mas, apesar do apoio de todas as partes, a Rússia se recusou a apoiar a declaração comum.
Paralelamente, foi proposta uma reunião na linha de fronteira para que se analise e compreenda a situação da forma mais precisa possível. O que mais eu devo compreender? Eu vou até lá todo mês, Sr. Putin! Estou pronto para ir ainda mais longe e convidá-lo a se encontrar em qualquer lugar do Donbass ucraniano, onde no momento acontece uma guerra.
Glória à Ucrânia!